“Nunca diga nunca!”
Nascido em Bastos, uma pequena cidade do interior do estado de São Paulo, inicialmente uma colônia japonesa com cerca de 20 mil habitantes, Humberto conta que desde pequeno em tudo o que fazia sempre tinha pra si mesmo a obrigação de ser o melhor, tanto nos estudos quanto no esporte, onde foi campeão panamericano de judô. Na hora de escolher a profissão, uma dúvida: médico ou engenheiro. Um teste de aptidão deu, como ele diz, “empate técnico” e ele acabou optando pela segunda.
Durante a faculdade conheceu uma fábrica de papel e celulose numa experiência que o levou a estabelecer três princípios para sua vida profissional que curiosamente foram logo derrubados: “1- nunca vou trabalhar em uma fábrica de papel e celulose por conta do forte cheiro de enxofre; 2 – nunca vou trabalhar em São Paulo, capital e 3 – nunca vou trabalhar com TI.” Sua formação foi em Engenharia de Produção Mecânica na USP, na Escola de Engenharia de São Carlos.
Após estágio na Robert Bosch em vendas técnicas para as montadoras, quis o destino que seu início de carreira fosse justamente na Votorantim Papel e Celulose, no processo de produção, e no final de seu período como trainee, em 1997, foi convidado a permanecer na empresa e adivinhem em que área…. justamente em TI. Iniciou sua trajetória na empresa no projeto de implantação do SAP, segundo ele próprio por sua visão sistêmica. Veio morar em São Paulo, trabalhar na área de Papel e Celulose e em TI. “E aí aprendi a nunca dizer nunca”, brinca. “Aprendi a surfar as oportunidades que me são presenteadas”.
Segundo Shida, da cabeça de engenheiro e por conta de seu foco em negócios saíram soluções inovadoras, uma delas que o levou a receber um convite da própria SAP Alemanha para desenvolver a solução de agro na sede da empresa. Seu conceito da Tecnologia orientada a negócios o levou a ficar definitivamente em TI. “Eu costumo dizer que sou uma pessoa de negócios que conhece TI.”
Do total de 24 anos no Grupo Votorantim, teve a oportunidade de conhecer todos os segmentos industriais. Os primeiros dez anos foram na Votorantim Celulose e Papel. Entre seus trabalhos pioneiros no grupo figuram projetos em IOT, Big Data, User Experience e Conectividade, entre outros, em um período em que estes conceitos estavam distantes de casos reais.
Em 1999, liderou um projeto de sistema integrado de gestão florestal, envolvendo não somente SAP como revisão de processos, novas atribuições das pessoas e comunicação das fazendas de plantação de eucalipto com a sede da empresa por meio do uso de notebooks, “equipamentos que não eram tão comuns da época, muito menos para o uso em campo”, destaca. O tempo de geração e envio das informações do campo foi reduzido, com notes e conectividade via satélite, de um mês para simplesmente um dia. “Esta mudança teve impacto direto no planejamento estratégico da companhia de 21 anos, considerando que o tempo de safra do eucalipto é de sete anos”, explica.
Entre 2003 e 2006, Humberto participou ativamente do modelo global da unificação do ERP em todas as empresas do grupo no que se consolidou na época como um dos maiores projetos da SAP em todo o mundo, considerando seu tamanho e a diversidade de companhias. Atuou como o gerente do projeto pelo segmento de Celulose e Papel. “Foi um trabalho grande de change management, saímos de um ERP usado na Votorantim Papel e Celulose para um modelo global mais estandardizado implantado em todo o grupo.” Em paralelo, foi responsável também pela TI no processo de abertura de capital da empresa na bolsa de Nova York.
Em seguida, recebeu convite para assumir o desafio dos negócios de agroindústria do grupo, a Citrovita, e da Votorantim Internacional, tendo como meta estabelecer uma governança de TI e transformar a TI em estratégica e mais aderente ao negócio. Entre os projetos, desenvolveu uma solução para agricultura de precisão com o uso de computador de bordo em tratores de pulverização e palmtops que levavam ao trabalhador do campo a programação para pulverização de áreas infectadas por pragas com a geolocalização exata da região, evitando a aplicação além dos pontos afetados. Segundo Humberto, o novo processo acarretou maior produtividade e uma redução significativa no custo da laranja, que representava 70% dos custos de produção do suco. “Antes o processo era por amostragem”, explica.
Após conduzir pela TI a fusão das empresas Citrovita e Citrosuco, recebeu o convite para estruturar a área de TI para as empresas corporativas do Grupo Votorantim, entre elas o Centro de Serviço Compartilhado. Mais tarde, com a missão de reorganizar a área de tecnologia na Votorantim Cimentos “North America”, Humberto mudou-se para Toronto, no Canadá, para estruturar a equipe regional para o crescimento da companhia fora do País.
De volta ao Brasil, foi responsável pela condução e estruturação da estratégia digital da Votorantim Cimentos tendo criado o maior emarketplace da construção civil reunindo os principais fornecedores de cada segmento do setor. A TI desenvolveu também um aplicativo utilizado por mais de 30 mil motoristas autônomos que podiam buscar no sistema oportunidades de fretes. “Passamos a ter uma empresa de logística de grande porte sem nenhum caminhão próprio. Realmente inovamos.” Outra iniciativa foi a manutenção preditiva dos equipamentos das plantas industriais usando inteligência artificial. “O pay back estimado em até 18 meses foi alcançado em pouco mais de um mês.” Depois de 24 anos nas diversas empresas do grupo Votorantim, Humberto se programou para seguir carreira nas áreas de Educação ou de Saúde “por uma questão de propósito”, como ele diz. “São duas áreas muito importantes para as pessoas e eu queria aproveitar todo o conhecimento adquirido no grupo Votorantim para dar a minha contribuição.”
Hoje está à frente das áreas de Tecnologia, Inovação e Operações na Unimed CNU – Central Nacional Unimed, uma cooperativa que reúne 345 Unimeds como sócias – sendo que cada uma funciona como uma empresa independente – com faturamento total em 2025 de 15 bilhões de reais. Em conjunto com a Unimed do Brasil, Seguros Unimed e Unimed Participações conduziu o programa Sinergia para otimizar o poder de compra, reduzir desperdício e prover soluções estruturantes para o diferencial competitivo de todas as Unimeds, que juntas detêm cerca de 40% de market share de planos de saúde no País e hoje estão presentes em 92% do território nacional.
Humberto reafirma que para ele tudo que diz respeito à TI tem que ser estratégico e trazer resultado para o negócio. “Eu tenho que ajudar a empresa a se transformar e este é meu objetivo também na Unimed.” Seus projetos partem do princípio da democratização da TI, dos dados, de inovação e de acesso à IA. E o primeiro passo foi a estruturação dos dados que hoje permite o acompanhamento da jornada 360º do cliente. “Isso foi a pavimentação juntamente com um novo roadmap de cibersegurança.” Humberto realizou o que chamou de produtização de dados, que permite que o negócio acesse dados de qualidade com segurança, sem depender da TI. “Hoje temos analistas de dados nas áreas de negócios e com isso fortaleço o conceito de uma empresa orientada a dados.”
No que diz respeito à IA, criou dois pilares: a IA Democrática e IA Especializada. Na primeira, 100% dos funcionários têm acesso a ferramentas a partir de capacitação pela qual já passaram 2 mil do total de 2,5 mil colaboradores. “Os funcionários já criam seus próprios agentes e eu tenho governança para fazer gestão de tudo isso”, afirma, completando que é muito gratificante ver analistas júniores e analistas de atendimento criando seus próprios agentes para as dores e as oportunidades que conhecem do seu dia a dia. “Sem letramento e governança não seria possível”, reforça.
Já a esteira de IA Especializada, que foca na inovação, vem trabalhando em uma plataforma para orquestração e gestão de multiagentes, independente do provedor, além do desenvolvimento de um superagente concierge. Segundo Humberto, todo o roadmap agressivo de TI tem como objetivo ser peça fundamental da meta da empresa de até 2029 ser reconhecida pelo cliente como a melhor operadora de Saúde de cobertura nacional do País. Seu lema: nunca trabalhar o digital pelo digital, e reforça sua crença no binômio pessoas e clima para o bom funcionamento de um departamento.


