Sonhos desengavetados
Por mais incrível que possa parecer, o sonho de criança de Cláudia Marquesani era adivinhem o que? Ser jornalista. Mas a Diretora de Tecnologia da Copa Energia não desistiu de seu sonho, pelo contrário. Em meio às atividades de líder de tecnologia, professora de Gestão de Projetos, doutoranda em Finanças e Controladoria e mãe, também cursa a graduação de Jornalismo e, em 2024, antecipou parte deste sonho com o lançamento de seu livro “Só podia ser mulher”, baseado em sua tese de mestrado que pesquisou a atuação de mulheres na Tecnologia.
“Não podemos engavetar nossos sonhos”, defende, acrescentando que todo o conhecimento é complementar e que o conhecimento integrado, como em um lego, é o que faz a diferença no desenvolvimento profissional. E quando pergunto onde pretende aplicar o jornalismo na carreira de CIO, Claudia me diz que já usa, e muito, em sua capacidade de articulação, na comunicação com as pessoas, em seus textos, suas apresentações e em seu storytelling… E eu comprovo isso na prática em nosso papo!
Mas como surgiu a tecnologia em sua vida?
Nascida em Monte Santo, uma pequena cidade no interior de Minas Gerais onde, segundo ela, as possibilidades para mulheres se limitavam a ser professora ou babá, filha de um mecânico e uma dona de casa, ela não se via fazendo nenhuma das duas coisas. O gosto pela escrita a levava à opção do Jornalismo, o que causava um certo espanto na mãe, que faleceu no momento em que Cláudia se preparava para a escolha de carreira. Ela acabou ingressando em um curso técnico, que parecia oferecer mais oportunidades e que a conduziu à faculdade de Análise de Sistemas, onde ingressou quando conseguiu seu primeiro emprego, na Brahma.
A executiva lembra que, naquela época, chegou a ficar com calo nas mãos de tanto endereçar currículos até conseguir esta primeira oportunidade, onde trabalhou por oito anos. Neste meio tempo, foi promovida e veio para São Paulo. Começou na fábrica da Brahma na cidade de Paulínia, interior de São Paulo, aos 18 anos como técnica de campo e a eterna curiosidade a levou a acompanhar um técnico que foi instalar novos servidores na empresa. “Pedi licença e me sentei ao lado dele com o meu caderninho e anotava tudo o que ele fazia”. Após cerca de um mês, este mesmo técnico a chamou para ajudá-lo no projeto de troca de servidores em todas as unidades da companhia e assim ela teve oportunidade de viajar pelo Brasil. “Foi aí que entrei na carreira técnica propriamente”.
Cláudia conta que seu foco sempre foi entender as necessidades do negócio e a estratégia da companhia. “Eu sempre quis saber para que o meu “Enter” servia. Independente da sua área de atuação, acredito que para prestar um bom trabalho você tem que saber qual é o papel de cada Enter que você dá”. E acrescenta: “fui crescendo na carreira pelo relacionamento com as pessoas, por esta capacidade de comunicação que acho que sempre foi um ponto super importante. Digo que sou uma pessoa de Humanas em Tecnologia”.
Depois de vivenciar as diversas fases de transformação da empresa durante oito anos, ela “troca de chapéu” e vai para a IBM. “É interessante você ter a visão do outro lado, a do prestador de serviço. Isso ajuda a te complementar como profissional, conhecendo a necessidade do cliente e aprendendo a negociar. Isso me deu também uma visão holística e este é outro conhecimento que uso até hoje”. Nos sete anos de IBM, Cláudia participou do outsourcing do datacenter da própria Brahma, trabalhou com gestão de serviços, gestão de negócios e relacionamento com cliente. “Você vê que a comunicação permeou minha carreira o tempo todo”, destaca.
E de volta para o lado do cliente, Cláudia foi para a Sodexo, empresa francesa de prestação de serviço em alimentação, implementar a área de serviços compartilhados na América Latina, onde posteriormente assumiu sua primeira posição gerencial. Segundo Cláudia, mudar de setor da economia é como aprender um novo idioma e, mais uma vez, agregar novos conhecimentos. E lá foi ela para o agronegócio na também francesa Louis Dreyfuss, como gerente de infraestrutura e projetos e depois também de aplicações. “Esta é uma indústria muito interessante, sazonal e com demandas em períodos específicos, dependendo do tipo de cultivo. É como se fossem várias empresas em uma única, então o desafio é conciliar tudo isso dentro de uma estratégia e um orçamento únicos”, reforça.
Na para a Europ Assistance, companhia da área de seguros do grupo Generali, seu desafio era a implementação do sistema core da companhia no Brasil, considerando todas as especificidades legais e geográficas do País. Em seguida, tendo como objetivo uma posição executiva em TI, foi para o Santander ocupar a superintendência de TI, com foco em infraestrutura e segurança. E uma curiosidade contada em nosso bate-papo é que, no dia de sua entrada no banco, ela foi contatada pela Petz, rede de cuidados animais, convidando-a para assumir a TI da companhia.
“Naquele momento eu disse não, mas após um ano e meio fui novamente procurada e fiz a mudança”. Lá permaneceu por quatro anos com o desafio de fazer com que a TI, até então considerada uma área prestadora de serviço, mostrasse seu potencial para garantir a escala necessária e acompanhar o crescimento da empresa, que abriu 50 novas lojas no período de um ano. “Ressaltamos a importância da tecnologia em todas as áreas de negócio, com a presença de um business partner de TI em cada uma delas”, lembra.
O convite da Copa Energia veio em um momento em que ela encerrava um ciclo de entrega na Petz e com uma proposta de construção digital, que coincidia com seus objetivos. A empresa é a maior distribuidora de GLP da América Latina. Cláudia reforça o papel vital deste produto na vida das pessoas, destacando que 20% da população brasileira não tem acesso ao gás de cozinha e a companhia está participando do programa Gás do Povo. “Então, quanto mais eu puder fazer com que a tecnologia ajude a trazer o produto para mais perto do consumidor, estamos realizando também um trabalho social”. Tudo isso passa por modelos de conhecimento de quem são estes clientes, de integração de canais e de otimização desta que, segundo a executiva, é uma indústria muito tradicional.
A entrada de Cláudia na Copa Energia, há cerca de dois anos, marcou a criação da cadeira de Tecnologia na diretoria da empresa. Ela conta que, quando chegou à companhia – distribuidora das marcas Liquigás e Copagaz e que hoje investe também em novas formas de energia – iniciou um trabalho de fundação digital e preparação de todo o ambiente para a transformação digital, com o lançamento dos portais corporativos e super apps. Em meio a este processo, aproveitou sua vivência no dia a dia para criar um framework dos primeiros 100 Dias do CIO na Empresa com sugestões do caminho crítico a percorrer, de como lidar com os diversos stakeholders, quem são os principais interlocutores, que tipos de documento devem ser gerados, entre outros. E comenta que, junto com toda a fundamentação da transformação digital, ela tinha que trabalhar com entregáveis. “Não adianta você ficar reformando a casa e não mostrar nenhum resultado”.
Hoje, a empresa tem um hub de inteligência artificial, onde são plugados todos os modelos desenvolvidos, potencializando a capacidade preditiva e generativa, tais como: previsão de demanda e dias de estoque, além da criação do modelo logístico abarcando todo os locais do País onde a Copa Energia atua, que são praticamente todos os estados além de outros agentes a serem orquestrados a partir desta plataforma central.
Numa iniciativa bastante ousada, Cláudia lançou o programa “Caminho do Gás”, que prevê a eliminação de todo o tipo de papel nos centros operativos da companhia, transformando tudo em aplicativos num prazo estimado de dois anos. E tudo o que ela descobriu sobre o novo setor foi colocando bota, capacete e indo a campo ver como funciona a operação na prática. “Acabou a era do CIO que fica sentado em uma sala de vidro achando que é um executivo que não precisa levantar da cadeira. Na era da inteligência artificial, a inteligência humana é o que faz com que tenhamos repertório para usar as ferramentas que passam a ser oferecidas”. E afirma que suas passagens por diversos setores foi o que resultou em uma composição de conhecimento. “Cada novo segmento são novos aprendizados que se somam.”


