Solucionadora de problemas
Recém promovida à vice-presidente de TI e Digital de Mercados Emergentes da Reckitt, empresa que atua nas áreas de limpeza, saúde e nutrição com marcas facilmente lembradas como Veja, Vanish, Finish, Sustagen, Naldecon, Luftal e Jontex, para citar algumas, Alaine Charchat, pronuncia-se Alaíne, foi fazer o então ensino médio de Informática pelo que ela mesma chamou de “imposição familiar”. “O meu pai dizia: você vai fazer Informática porque é o que dá dinheiro. Lembro muito desta frase.” E acrescenta que sua família era humilde e a preocupação dele era que trabalhasse em uma área onde conseguisse se sustentar.
Alaine disse que no começo foi estranho, até pelo pequeno número de mulheres na turma. Até que começou a estagiar e descobriu que o que mais gostava era de resolver problemas. “E isso repercutiu na minha carreira toda, virou parte da minha estrutura profissional e do que acredito que seja o papel da Tecnologia, um meio para ajudar o negócio a crescer, a vender mais e a ser mais ágil e eficaz.” Ela admite que mesmo assim ainda relutou por se achar uma pessoa mais de vendas e de relacionamento, o que a levou à faculdade de Marketing, mas se manteve na tecnologia, inclusive para pagar a faculdade.
No primeiro emprego uma grande decepção, não com a área de Tecnologia, mas com o ser humano. Tinhas 18 anos e sofreu assédio do chefe e ao denunciar foi demitida. Foi trabalhar então em um provedor de internet onde avaliava a necessidade do cliente para propor a solução. “Me tornei uma profissional de Tecnologia com uma veia comercial. Eu fui me moldando e entendendo como eu iria me apaixonar também pela própria Tecnologia em si. E acabou sendo muito natural”, diz. E acrescenta: “fui vendo que Tecnologia é muito maior do que programação.”
Foi quando veio a oportunidade de Alaine ir para a área de Telecom, atuar no relacionamento entre a Tecnologia e Negócios. Passou pelas operadoras Claro, TIM e Vivo como Analista de Negócio entendendo o que o negócio precisava e traduzindo isso para requerimentos técnicos. “E quando chegava ao produto eu testava, montava manuais… Isso me deu muita robustez para entender que a tecnologia está ali para atender o negócio e que tecnologia por tecnologia não gera resultado.” Segundo Alaine, seu processo de maturidade ao longo dos anos foi sempre enxergar onde a tecnologia podia gerar valor, “e isso é um mantra que uso até hoje.”
Em 2005, ainda na Claro, muda-se para São Paulo e usava todos os momentos livres para fazer cursos complementares até conseguir chegar a um MBA na Fundação Getúlio Vargas, que foi um “turning point em sua carreira”, como ela mesma diz. “Parece que me tornei visível e a partir daí comecei a ser procurada por head hunters.” Foi quando foi convidada para a Unilever no que classifica como a segunda fase de sua carreira e já olhando para América Latina.
Em cinco anos e meio teve três promoções e saiu da empresa como executiva sênior. “A Unilever me deu uma bagagem muito importante para a minha carreira, tanto técnica quanto de negócios e cultural. E mais, como ser e como não ser um bom líder. Assumi cargos onde tinha que me posicionar e ser respeitada por pessoas de outros países. Tive que aprender rapidamente a me comunicar e como lidar com diversos públicos, inclusive com países com ambiente predominantemente masculino e com poucas mulheres.” Alaine liderou a implementação de SAP para toda a América fora dos Estados Unidos. “Foi um projeto muito marcante, um grande aprendizado e uma jornada muito importante para mim.”
Para esta trajetória, na época, Alaine disse que foi obrigada a criar uma espécie de personagem, uma capa, tornando-se uma líder muito dura, como ela mesmo classifica, porque achava que para os outros te respeitarem você não poderia mostrar fraqueza. E afirma que hoje em dia não teria mais esta postura. “Hoje prego, inclusive em mentorias, que você seja você mesmo, não perca a sua essência.” Mas lembra que teve que ser corajosa e resiliente para encarar preconceitos vindos de pessoas, principalmente homens, mais antigos na companhia e que duvidavam de sua eficiência e questionaram sua rápida ascensão na empresa. “Saí de lá muito fortalecida”, comenta.
E de lá Alaine foi para a Diageo onde ocupou o cargo de Head de TI e diz que com todo o aprendizado anterior se sentia segura. “Eu dominava tecnologia e dominava o negócio e não precisava ser um personagem, e também sempre corri atrás de aprender o que não sabia. E acho que no momento em que você tem esta autoconfiança tudo funciona melhor.” Lá Alaine participou de toda da transformação digital da jornada comercial, desde a captura de pedidos até a visão analítica, gerando insights para a companhia.”
Na Johson&Johson, Alaine assume pela primeira vez a posição de Diretora de TI tendo como responsabilidade inicial atender todas as áreas comerciais das três divisões da companhia: médica, consumo e farmacêutica. Conta que montou um time robusto com foco em geração de valor, e um de seus trabalhos foi mostrar a importância da tecnologia e o que a área poderia fazer pelo negócio. E aponta o projeto de pricing para a área médica como um dos mais desafiadores que enfrentou na empresa. “Demoramos para engrenar e entender como faríamos para chegar do outro lado”, admite. Lembra que teve muitos problemas e que a virada de chave foi o uso de transparência, mostrando inclusive onde a TI estava errando, estabelecendo uma relação de confiança de todos os lados e tirou muito da pressão, levando a um ambiente mais leve para a entrega final. “Tudo se tornou mais fluido. Não é que você não pode errar, você pode errar mas tem que corrigir o erro rapidamente.”
Dois fatos curiosos com relação à Johnson surgiram em nossa conversa, o primeiro foi que durante a entrevista no processo seletivo Alaine deixou claro que pretendia engravidar. Recebeu como resposta do seu então futuro líder que a empresa não a queria por nove meses, mas para a realização de uma carreira. E, mais tarde, durante a pandemia, período que coincidiu com sua licença maternidade, ela foi procurada com a proposta de no seu retorno assumir o cargo de CIO na área de Consumer.
O convite da Reckit, em 2022, veio para assumir como CIO da América Latina e lá chegando Alaine conta ter encontrado um time muito focado em analytics mas sem a cultura de geração de valor, de impacto para o negócio. “E este foi meu primeiro trabalho nesta nova cadeira, fazer com que passassem a entender e atacar a dor do negócio.” E em seis meses, Alaine desafiou o próprio time em um hackaton em conjunto com a área de negócios para atacar as dores que estavam sentindo. “E quando você coloca TI e negócios juntos você gera uma co-construção, e isso foi muito legal. E a partir daí começamos a ser vistos como uma área que pode contribuir muito mais e passamos a falar em transformação digital. E este foi o start também para pensar em inovação, colocando a tecnologia em seu papel estratégico.”
Neste processo, Alaine conta que foram mapeadas 200 mil oportunidades de automação com base nos casos reais da empresa e avaliado onde a participação da TI poderia gerar mais valor para o negócio. “Este foi o desafio que a CEO me colocou e hoje qualquer iniciativa de TI tem um valor de P&L e passa pela aprovação do negócio”, completa. E acrescenta que foi uma grande transformação de como a tecnologia era praticada e como é hoje.
Segundo Alaine, sobre IA, a organização, que já fazia uso de algumas ferramentas, estava buscando o que fazer em termos de inovação “fora da caixa”. A TI criou então uma Semana da Inovação onde o primeiro passo foi Educação, levando os executivos a entenderem o que é efetivamente IA tendo como base casos reais. A partir daí lançaram um novo rackaton, desta vez com foco em IA. Foram selecionados três projetos julgados por uma banca, dois dos quais já foram entregues e, segundo Alaine, um deles chegou a gerar 500 mil pounds, ou 3 milhões de reais de economia para a companhia. “Desta forma, com a participação das áreas usuárias as pessoas percebem que IA não é algo que você compra na prateleira e começa a usar de imediato.”
Mas esta virada não foi fácil, como comenta. “Tive que dar pequenos passos até que as pessoas entendessem que isso era interessante para a nossa área e para eles próprios”, diz. E conta que buscou também aliados nas áreas de negócios que referendassem a mudança, “A pergunta hoje é qual é o benefício para o negócio desta sua demanda.” E diz que foi a partir destas mudanças que ela ganhou uma visibilidade global na companhia e muito do que foi feito na América Latina acabou virando benchmark para o global. “Tudo tem que ser escalável. Se a gente quer ser Grande tem que ser Grande na atuação.”
Tudo isso resultou também na promoção ao novo cargo assumido em março de Vice-presidente de TI e Digital de Mercados Emergentes que inclui África, Oriente Médio, Índia, China e norte da Ásia. “Só tenho a agradecer ao meu time e à Reckitt por esta e todas as oportunidades”, diz Alaine, e conclui comentando que o novo cargo a levará a mudar para a Inglaterra com a família no próximo semestre e a “Bastidores da TI” te deseja muito sucesso!!!!


