Por Ricardo Scheffer*
Com pouco mais de três anos de implantação no Brasil, o 5G atingiu a marca de 2 mil municípios conectados, com 65% da população com acesso à tecnologia, segundo dados de 2025 da Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações). Apesar do governo estar num estágio avançado, já que superou com folga a meta estabelecida, 74 milhões de cidadãos ainda permanecem sem cobertura, refletindo um problema estrutural.
Hoje, a expansão da tecnologia de quinta geração depende de redes de fibra óptica robustas e, em determinados contextos, a falta de viabilidade econômica ainda é impeditivo para a ampliação dessa infraestrutura em regiões remotas ou de menor densidade populacional.
Essa lacuna cria um abismo digital que só será superado com projetos que tratem a conectividade como uma política pública de desenvolvimento, e não apenas como uma questão de mercado. Implantar infraestrutura digital em áreas em que o retorno financeiro é incerto exige visão de longo prazo e ação coordenada entre o governo, o setor privado e a sociedade civil.
Uma das soluções mais eficazes para enfrentar essa barreira é a criação de projetos estruturantes, como Parcerias Público-Privadas (PPPs), que visem estabelecer uma base de infraestrutura digital em locais estratégicos. Essas propostas não apenas criam as condições técnicas para a expansão do 5G, mas também impulsionam o desenvolvimento econômico, a inclusão digital e a competitividade regional.
A Infovia Digital do Mato Grosso do Sul é um exemplo concreto de como uma política pública de infraestrutura pode ampliar as oportunidades de evolução de um estado. Com aproximadamente 7 mil quilômetros de rede de fibra óptica, a PPP interligou municípios, escolas, hospitais, órgãos públicos e comunidades indígenas, criando um ecossistema digital robusto.
Este é um projeto que tem capacidade de viabilizar a interligação de hospitais para compartilhamento de exames em tempo real, traz sistemas inteligentes de monitoramento de rodovias e conecta escolas rurais a plataformas digitais de ensino, ampliando o alcance da educação de qualidade.
O diferencial do modelo é que, ao invés de depender das grandes operadoras, o Estado estruturou uma rede própria, administrada por uma empresa privada, que é aberta à exploração por provedores regionais e grandes players, viabilizando o acesso em localidades que estavam fora do mapa de investimentos das telcos.
O impacto estrutural desse modelo é significativo. A fibra óptica elimina a dependência de enlaces de rádio, que são instáveis e sujeitos a interferências climáticas, garantindo qualidade e segurança na transmissão de dados. Além disso, cria um ambiente de negócios mais competitivo, reduzindo o custo da conectividade e incentivando o surgimento de ISPs (Internet Service Provider) locais, que podem aproveitar a infraestrutura de fibra óptica para fornecer seus serviços .
O modelo da Infovia prevê que 20% da receita obtida com a exploração da capacidade adicional da rede seja revertida ao Estado, possibilitando novos investimentos em serviços públicos e na própria manutenção da infraestrutura. Essa dinâmica cria um ciclo virtuoso, em que a conectividade impulsiona o desenvolvimento e, ao mesmo tempo, garante uma continuidade de geração de negócios e, consequentemente, de receitas.
O Brasil precisa enxergar a conectividade como uma política de Estado, e não como um subproduto da expansão natural do mercado. Estudos da McKinsey apontam que um aumento de 10% na penetração da banda larga pode gerar um crescimento de até 1,4% no PIB (Produto Interno Bruto). Ou seja, a infraestrutura digital é um ativo econômico tão estratégico quanto rodovias, ferrovias ou portos, e deve ser tratada como tal.
O 5G, com suas altas velocidades, baixa latência e capacidade de conectar múltiplos dispositivos simultaneamente, é um divisor de águas para a digitalização de setores essenciais como a indústria 4.0, a telemedicina, a agricultura de precisão e a Internet das Coisas (IoT).
A tecnologia está pronta, mas precisa de um caminho para chegar até a ponta. E esse caminho não será pavimentado apenas pela lógica do mercado, mas por uma estratégia nacional de conectividade. O futuro do 5G no Brasil depende da nossa capacidade de construir essas estradas digitais, levando inclusão, competitividade e desenvolvimento para além dos grandes centros urbanos.
*Ricardo Scheffer é CEO da SONDA do Brasil


